A reorganização das cadeias globais de produção e fornecimento tem levado empresas a reconsiderar onde determinadas atividades são realizadas. Nesse cenário, o nearshoring — estratégia de aproximar operações, fornecedores ou serviços dos mercados atendidos — ganhou espaço entre empresas que buscam diversificar suas estruturas e ampliar a atuação internacional.
A América Latina está inserida nesse movimento. Segundo o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o nearshoring pode representar até US$ 78 bilhões adicionais em exportações anuais de bens e serviços para a região no curto e médio prazo. Para transformar esse potencial em resultados, porém, fatores como infraestrutura, integração regional, capacidade produtiva e ambiente regulatório precisam ser considerados.
Para médias empresas, a estratégia pode ser especialmente relevante em processos de internacionalização ou reorganização operacional. Mas a escolha de um novo mercado exige uma análise que vá além da localização: é preciso avaliar os impactos financeiros, tributários, contábeis, operacionais e regulatórios.
O que é nearshoring?
Nearshoring é a transferência de determinadas atividades ou etapas da cadeia de valor para um país geograficamente próximo ao mercado de origem ou aos mercados atendidos pela empresa.
A estratégia pode envolver produção, fornecimento ou prestação de serviços. A proximidade tende a facilitar a comunicação, a coordenação operacional e determinados fluxos logísticos, além de ampliar as alternativas geográficas da empresa.
Quais são os principais benefícios?
Proximidade com mercados estratégicos
Estar mais próximo dos mercados atendidos pode facilitar a comunicação com clientes, fornecedores e parceiros e apoiar estratégias graduais de internacionalização.
Diversificação da cadeia de fornecimento
Uma nova localização pode reduzir a dependência de uma única região ou fornecedor, criando alternativas para etapas específicas da operação sem necessariamente substituir a estrutura existente.
Flexibilidade operacional
Dependendo do modelo adotado, o nearshoring permite ampliar a capacidade de execução sem reproduzir toda a estrutura interna em outro mercado. Isso pode ser aplicável a funções administrativas, financeiras, contábeis e de tecnologia.
Acesso a competências e fornecedores
A entrada em novos mercados também pode ampliar o acesso a profissionais qualificados, fornecedores, tecnologias e parceiros estratégicos, contribuindo para a integração às cadeias globais de valor.
Nearshoring não significa apenas reduzir custos
Um dos principais cuidados é avaliar a estratégia exclusivamente pela comparação de custos entre países.
O custo total da operação inclui fatores como tributação, estrutura societária, contratação de pessoas, infraestrutura, tecnologia, logística, câmbio, compliance e controles contábeis e financeiros.
Por isso, a questão central não é apenas “onde custa menos?”, mas:
Qual estrutura oferece o melhor equilíbrio entre eficiência, risco e objetivos estratégicos?
Uma operação aparentemente mais econômica pode deixar de ser vantajosa quando todos esses fatores são considerados.
O que avaliar antes de implementar uma estratégia de nearshoring?
A decisão deve considerar, de forma integrada:
Tributação e compliance: avaliar o sistema tributário, as obrigações fiscais e regulatórias e os impactos de operações entre empresas relacionadas, quando aplicável.
Estrutura societária e operacional: definir se a atividade será conduzida por uma estrutura própria, uma empresa do grupo ou um parceiro especializado, considerando as implicações financeiras, contábeis, tributárias e de governança de cada alternativa.
Pessoas e competências: analisar a disponibilidade de profissionais qualificados, custos trabalhistas e requisitos legais do mercado escolhido.
Infraestrutura e logística: verificar as condições de transporte, energia, conectividade e demais recursos necessários à operação. O BID destaca infraestrutura e integração regional como fatores relevantes para o aproveitamento das oportunidades na região.
Governança e controles: estabelecer processos que permitam integrar a nova operação às estruturas contábeis, financeiras e administrativas existentes.
Como transformar o nearshoring em uma decisão empresarial?
Antes de avançar, a empresa deve responder a algumas questões:
- Qual atividade será transferida ou adicionada à nova estrutura?
- Qual objetivo estratégico a mudança pretende atender?
- Quais países oferecem condições adequadas para a operação?
- Qual será o custo total da estrutura?
- Quais serão os impactos tributários, contábeis e regulatórios?
- Como a nova operação será integrada e controlada?
Esse diagnóstico permite comparar alternativas com base em dados concretos e reduzir o risco de decisões orientadas apenas por custos ou proximidade geográfica.
Nearshoring exige planejamento
O potencial da América Latina nas novas configurações das cadeias globais é relevante, mas os resultados dependem das características de cada mercado e operação.
Para médias empresas, o nearshoring pode contribuir para diversificar fornecedores, aproximar operações de mercados estratégicos e apoiar a internacionalização.
O valor da estratégia, entretanto, está na capacidade de estruturar uma operação economicamente viável, regularizada e alinhada aos objetivos do negócio.
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