IFRS 18: o novo padrão internacional que redefine a transparência e a comparabilidade das demonstrações financeiras

A contabilidade internacional entra em uma nova fase com a publicação da IFRS 18, emitida pelo International Accounting Standards Board em abril de 2024 e convergida no Brasil como CPC 51 pelo Comitê de Pronunciamentos Contábeis.

Embora sua aplicação obrigatória esteja prevista para períodos anuais iniciados em ou após 1º de janeiro de 2027, a norma já exige atenção imediata: as empresas precisarão apresentar informações comparativas de 2026, o que antecipa a necessidade de adaptação.

Mais do que uma atualização técnica, a IFRS 18 representa um movimento estrutural em direção a relatórios financeiros mais comparáveis, transparentes e úteis para investidores, analistas e demais stakeholders.

O que muda com a IFRS 18

A principal transformação promovida pela IFRS 18 está na forma de apresentação da Demonstração do Resultado (DRE). A norma substitui parcialmente a IAS 1, reduzindo a discricionariedade na classificação de receitas e despesas.

A nova estrutura introduz categorias padronizadas:

  • Operacional
  • Investimento
  • Financiamento
  • Tributos sobre o lucro
  • Operações descontinuadas

Essa segmentação cria uma hierarquia mais clara do desempenho financeiro, permitindo distinguir, de forma objetiva, o resultado gerado pelo negócio principal daquele decorrente de decisões de financiamento ou alocação de capital.

Além disso, passam a ser obrigatórios dois novos subtotais relevantes:

  • Lucro ou prejuízo operacional
  • Lucro ou prejuízo antes de financiamento e tributos sobre o lucro

Essa padronização fortalece a comparabilidade entre empresas e reduz práticas que, historicamente, permitiam a manipulação da percepção de desempenho – o chamado risco de “contabilidade criativa”.

Impactos diretos: EBITDA, covenants e remuneração variável

As mudanças trazidas pela IFRS 18 terão efeitos imediatos sobre indicadores amplamente utilizados pelo mercado, como o EBITDA.

Ao redefinir a classificação de receitas e despesas, a norma pode alterar significativamente esse indicador, impactando:

  • Planos de remuneração variável: executivos com bônus atrelados ao EBITDA podem ter seus resultados afetados pela nova metodologia;
  • Covenants bancários: contratos de dívida frequentemente exigem manutenção de determinados índices financeiros. Alterações no EBITDA podem levar ao descumprimento dessas cláusulas, exigindo renegociação com credores ou até antecipação de pagamentos (waiver).

Nesse contexto, a revisão contratual preventiva passa a ser uma medida estratégica.

Medidas de desempenho da administração (MPMs): mais transparência, menos subjetividade

Um dos avanços mais relevantes da IFRS 18 é a exigência de divulgação das chamadas Management Performance Measures (MPMs) métricas não definidas pelas IFRSs, mas amplamente utilizadas pela administração.

A norma determina que:

  • As MPMs sejam apresentadas em seção específica;
  • Haja reconciliação obrigatória com os números contábeis oficiais;
  • Seja incluída uma nota explicativa padronizada, detalhando premissas e critérios.

Esse mecanismo cria um verdadeiro “cerco” à utilização indevida de indicadores ajustados, reforçando a necessidade de consistência e boa-fé na comunicação financeira.

Desafios operacionais: sistemas, dados e processos

A implementação da IFRS 18 não se limita à área contábil, ela exige uma revisão abrangente de todo o processo de reporte financeiro.

Entre os principais desafios, destacam-se:

1. Mapeamento e granularidade de dados

Empresas com múltiplos ERPs ou estruturas complexas precisarão revisar a forma como capturam e classificam dados. A granularidade exigida pela nova norma pode não ser suportada pelos sistemas atuais.

2. Adequação de sistemas e ferramentas

ERPs e soluções de consolidação deverão ser ajustados para refletir os novos subtotais e categorias, além de suportar a reconciliação das MPMs.

3. Revisão de processos de fechamento

O fechamento contábil e os procedimentos de auditoria precisarão incorporar novos agrupamentos, controles e validações.

4. Governança da informação

Será fundamental garantir consistência entre os indicadores utilizados internamente e aqueles divulgados ao mercado.

Auditoria, controles internos e o reforço da governança

A IFRS 18 eleva o nível de exigência sobre a verificabilidade das informações financeiras. Nesse cenário:

  • Controles internos robustos tornam-se indispensáveis para assegurar a rastreabilidade dos dados;
  • Auditoria interna e externa passam a atuar de forma ainda mais integrada à governança;
  • A trilha de auditoria ganha protagonismo, especialmente em ambientes com uso intensivo de tecnologia.

A lógica é clara: dados que não podem ser auditados ou rastreados perdem valor na governança moderna.

Disclosure: o papel central das notas explicativas

Outro ponto de destaque da IFRS 18 é o fortalecimento do disclosure. As notas explicativas deixam de ser meramente complementares e passam a ocupar posição central na transparência financeira.

É nelas que serão detalhados:

  • Julgamentos da administração;
  • Reconciliações de indicadores;
  • Premissas utilizadas em estimativas contábeis.

A qualidade dessas divulgações será determinante para a credibilidade das demonstrações financeiras.

Pontos de atenção e recomendações práticas

A experiência com transições normativas mostra que a preparação antecipada é decisiva. Entre as principais ações recomendadas, destacam-se:

  • Mapear os impactos nas linhas de receita e despesa conforme as novas categorias;
  • Identificar e revisar todas as MPMs utilizadas pela empresa;
  • Avaliar contratos financeiros e métricas de desempenho;
  • Realizar simulações (dry-runs) dos novos modelos ainda em 2026;
  • Reprocessar dados históricos para garantir comparabilidade;
  • Investir no treinamento das equipes contábil e financeira.

IFRS 18 e o futuro da informação financeira

A chegada da IFRS 18 marca um avanço relevante na busca por integridade e comparabilidade global. Ao reduzir a subjetividade e exigir maior transparência, a norma reforça princípios fundamentais da contabilidade: fidedignidade, verificabilidade e utilidade da informação.

Em um cenário onde tecnologias como inteligência artificial e blockchain ampliam a capacidade de análise e rastreabilidade, o papel do julgamento humano permanece central. A ética, o rigor técnico e o compromisso com a verdade contábil seguem como pilares inegociáveis.

Mais do que uma obrigação regulatória, a IFRS 18 representa uma oportunidade para as empresas fortalecerem sua governança, aprimorarem seus processos e elevarem o nível de confiança junto ao mercado.

Como a Locatelli pode apoiar sua empresa

A adaptação à IFRS 18 exige conhecimento técnico, visão estratégica e capacidade de execução. A Locatelli apoia empresas em todas as etapas desse processo, desde o diagnóstico de impactos até a implementação de novos modelos de reporte, revisão de indicadores e adequação de sistemas.

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